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sábado, 29 de dezembro de 2007

Críticas ao Sr. Ignatius

"Jefferson se opôs aos beatos, não à Religião", afirma missivista no The Washington Post


Nesta manhã de sábado, acessei o The Washington Post e me deparei com esta afirmação de um leitor do jornal norte-americano, na seção "Cartas ao Editor". Trata-se de mais uma resposta ao texto de David Ignatius publicado na edição de 27 de dezembro.

O leitor, Don Patterson, chama a atenção para um aspecto que, segundo ele acredita, Ignatius deixou passar: como a desenfreada racionalidade secular tão facilmente permite que interesses joguem a moralidade para bem longe.

Segue o leitor atentando para o fato de que Jefferson jamais promoveu a secularização ou opôs-se a religião como uma fonte de orientação para cidadãos e lideranças políticas. Ele se opunha, isto sim, aos beatos déspotas, politicamente controladores, e mesmo que ele pudesse ter confiado excessivamente na superação do dogma religioso pela razão, para Jefferson, no entanto, a "religião promovia a moralidade e a moralidade era central para o sucesso da democracia", encerra seu comentário o leitor do jornal de Washington.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Livros didáticos de História



1776: Independência ou Revolução?

Suponhamos que um estudante do ensino médio tivesse a curiosidade de aprender um pouco mais sobre os Fundadores da nação norte-americana, assunto de post's anteriores, o que já seria uma raridade...

Suponhamos que ele ou ela não recorresse ao São Google, mas fosse ao bom e velho livro didático, o que ele encontraria?

Vejamos se os livros que eu tenho em casa esclareceriam as discussões que esquentam a imprensa norte-americana às vésperas das eleições para presidente.

O título desse post, por exemplo, eu tirei do livro História: das cavernas ao Terceiro Milênio de autoria de Myriam Becho Mota e Patrícia Ramos Braick, pela Editora Moderna.

O capítulo começa de uma maneira muito interessante, trazendo um questionamento sobre se é possível falar em liberdade nos EUA. Afinal, "práticas segregacionistas fazem parte da história da sociedade norte-americana desde a colonização". Assim, a história social nos Estados Unidos comprova que "o reconhecimento constitucional de um direito não significa, na prática, sua aplicação".

Ótimo. Já é possível estimular nos alunos um pensamento crítico, seja nos EUA, seja em nossa realidade tupiniquim.

Em seguida, as autoras defendem que o pioneirismo da América inglesa em sua ruptura com o sistema colonial deveu-se à "afirmação crescente de uma identidade própria, primeiro local e depois norte-americana, na medida em que os habitantes aumentaram sua força econômica e desenvolveram sua capacidade de se valer do direito para se defender".

Enfim, a precipitação da crise nas Treze Colônias, para as autoras, foi uma conseqüência de "medidas erradas" tomadas no "momento errado" por Londres. Que medidas foram estas?
Intensificação do controle sobre o comércio norte-americano e atlântico.

Por que "no momento errado"?

Justamente quando as colônias queriam relaxar os controles existentes como dar-lhes um fim, nem tanto por razões econômicas, guardem isso, mas por fatores políticos: "os coloniais sentiam-se fortes e prósperos, queriam ter liberdade de movimentos e ação".

Continua...




Jefferson e Adams: homens do Iluminismo (parte 2)


As cartas entre Thomas Jefferson e John Adams

Continuando o post anterior, Ignatius observa que Adams (o simpático velhinho da imagem aqui postada), numa carta enviada a Jefferson (o senhor do post anterior) em 20 de junho de 1815, referira-se a:

"A questão diante da raça humana é se o Deus da natureza deve governar o mundo por Suas próprias leis, ou são os sacerdotes e reis que devem regê-lo por milagres fictícios?"

Atenta Ignatius que Adams desconfiava de sacerdotes e reis, mas que também se mostrava cético em relação aos filósofos revolucionários que tinham arruinado-os na França.

Na resposta de Jefferson a Adams, remetida em 5 de maio de 1817, aquele assevera a este sobre a "verdadeira religião" tal como baseada "em preceitos morais inatos no homem" e a "doutrina sublime do filantropismo e do deísmo ensinados por Jesus de Nazaré". Jefferson, continua Ignatius, contrastava assim, a verdadeira fé aos "dogmas sectários".

E se caso a versão sectária prevalecesse, preocupava-se Jefferson, melhor seria, portanto, concordar com as especulações de Adams, ou seja, de que "este seria o melhor dos mundos se não houvesse religião nele".

Em outra missiva de Adams, do dia 4 de novembro de 1816, portanto, anterior a esta de seu companheiro, ele declara:

"Temos agora uma Sociedade Bíblica nacional, para propagar a Bíblia do Rei James por todas as nações. Não seria melhor aplicar estas pias subscrições para purificar a Cristandade das corrupções do Cristianismo do que propagar aquelas corrupções na Europa, Ásia, África e América?"

Ignatus frisa que os Fundadores acreditavam em Deus, mas para muitos dentre eles, sua fé era uma questão profundamente privada, tal como Jefferson, em carta do dia 11 de janeiro de 1817, assinalara a respeito da sua fé, ou seja, "conhecida por meu Deus e por mim apenas". Com efeito, para eles, a demonstração pública da religiosidade consistia numa profanação de seu exercício interior e espiritual.

Na atual campanha presidencial nos EUA, destaca Ignatus, um dos temas tem sido definir se seu país sairá das políticas baseadas na fé que a administração Bush tem celebrado como a proposta mais racional e secular. Neste debate, religiosos conservadores gostam de enfatizar sua ligação com os Fundadores e com o nascimento da Nação como "uma nação sob Deus". No entanto, uma releitura das cartas entre Jefferson e Adams relembraria aos americanos, conclui Ignatus, que neste debate os Fundadores, como "homens do Iluminismo", estariam do lado do partido da Razão.